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Tempestades Elétricas

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Por Flavio Kunreuther | Instrutor da Outward Bound Brasil e National Outdoor Leadership School

* texto publicado originalmente no Manual do instrutor da OBB

O QUE É UM RAIO?

É uma descarga elétrica gerada pela diferença de potenciais elétricos entre nuvem e terra, terra e nuvem, nuvem e nuvem ou dentro de uma mesma nuvem. Quando esta diferença de potencial elétrico (eletricidade estática) excede a capacidade de isolamento do ar, o raio ocorre, igualando a diferença. O raio que atinge a terra é, na verdade, o encontro do vetor que vem de uma nuvem, com um dos vários vetores que sobem de pontos proeminentes da terra, em direção ao ar, notadamente o mais próximo.

Geralmente os raios partem do solo, ou o atingem, imediatamente abaixo de uma nuvem. Contudo, há casos em que raios atingem o solo até 16km longe da nuvem que o gerou.

As nuvens que geram raios são as cumulunimbus. Elas vão crescendo verticalmente ao longo do dia, pela ação do ar quente que sobe rapidamente no seu interior, gerando a eletricidade estática. Estas mesmas nuvens certamente causarão chuva intensa.

Um raio pode atingir 200 milhões de volts, 300 mil amperes e 8000ºC. Raios ocorrem 8 milhões de vezes por dia, em todo o mundo.

MECANISMOS DE INJÚRIA DE UM RAIO

Golpe direto – o raio atinge diretamente a pessoa, com enormes possibilidades de causar morte.

Espirro – o raio atinge algo e “espirra” no ar, atingindo uma pessoa.

Contato – raio atinge algum objeto que está em contato com uma pessoa.

Corrente no solo – o raio atinge o solo e é irradiado por sua superfície ou por algum duto condutor (i.e. raiz de árvore, córrego).Uma pessoa com dois pontos do seu corpo em contato com o solo e afastados entre si, aumenta muito a possibilidade de danos causados pela passagem de corrente elétrica através do corpo, pela diferença de potenciais elétricos entre os dois pontos. Um bom exemplo disto é a corrente que entra por um pé e sai pelo outro, causando queimaduras em ambas as pernas e virilha.

Deslocamento de ar – é o efeito da queda de um raio muito próximo a uma pessoa, com traumas causados pelo deslocamento de ar, com efeito similar ao de uma bomba. Portanto, o mecanismo de trauma é mecânico e não elétrico. Fraturas, luxações, traumatismo craniano e lesões de coluna são possíveis.

TIPOS DE INJÚRIAS CAUSADAS POR RAIOS

Parada cardíaca – a corrente elétrica atrapalha o ritmo cardíaco, podendo causar sua interrupção ou fibrilação. Corações sadios costumam voltar por si mesmos, mas danos maiores podem impedir a retomada do pulso, ou a parada respiratória pode causar nova interrupção logo após a sua retomada.

Parada respiratória – a descarga elétrica pode fazer o cérebro interromper o comando de estímulo à respiração. Esta interrupção pode ser prolongada, causando parada cardíaca (ou nova parada, caso o pulso tenha cessado e reiniciado). A literatura específica diz que é comum a respiração levar bastante tempo (horas) para ser retomada, havendo necessidade de prolongada ventilação do paciente.

Danos neurológicos – além da possibilidade de indução à parada respiratória, podem ocorrer: Inconsciência, paralisia temporária (principalmente dos membros inferiores), convulsão, amnésia temporária, zunido no ouvido ou perda de audição (geralmente temporária, mas possivelmente permanente com rompimento do tímpano. Sangramento pelos ouvidos é possível), perda temporária da visão (perda permanente é muito rara), enjôo e vômito por breve período de tempo.

Queimaduras – queimaduras geralmente são superficiais e dificilmente mais graves. Se forem mais graves e profundas, serão indicativos de outros sérios danos, que tornam estas queimaduras problemas proporcionalmente menos importantes. Queimaduras causadas por raios devem ser tratadas como as demais queimaduras.

Mecânicos (deslocamento de ar ou “explosão” do raio) – qualquer tipo de trauma é possível, como fraturas, ferimentos na cabeça, luxações, ferimentos na cabeça, abdômen ou peito.

 
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"Por momentos um cúmulus compacto, de bordas acobreado-escuras, negreja no horizonte. Deste ponto sopra, logo depois, uma viração, cuja velocidade cresce rápida, em ventanias fortes. A temperatura cai em minutos e, minutos depois, os tufões sacodem violentamente a terra. Fulguram relâmpagos; estrugem trovoadas nos céus já de todo bruscos e um aguaceiro torrencial desce logo sobre aquelas vastas planícies." Euclides da Cunha – Os Sertões.

 

COMO EVITAR ACIDENTE COM RAIOS?

Conheça o padrão de clima da área a ser visitada e variações decorrentes da época do ano – se raios tendem a ocorrer no fim da tarde, evite locais expostos neste horário.

Trovões são ouvidos a não mais que 10 milhas (16km). Portanto, ao ouvi-los , a busca por local seguro e demais precauções têm que ser iniciadas imediatamente.

Ensine seus alunos sobre tempestades elétricas, o que fazer e o que não fazer. Tome cuidado para não ensinar somente as curiosidades interessantes, deixando de lado o que realmente pode salvá-los de problemas.

Escolha áreas seguras e evite as inseguras:

Áreas Perigosas - picos, cristas, e áreas significativamente mais altas que seus arredores, entradas de cavernas, árvore solitária ou poucas árvores isoladas (contato direto com o tronco de qualquer árvore é bastante perigoso), extensas áreas descampadas, rios e lagos e suas bordas próximas (chão molhado não é mais perigoso que chão seco);

Áreas de menor risco – colinas suaves, áreas não inundáveis e mais baixas que seus arredores, mata homogênea (mas sem encostar em nenhuma árvore), cavernas profundas (não inundáveis).

Canoístas devem sair da água ao ouvir o 1º trovão e afastar-se ao menos 50 ou 60m da borda da água. Lembre-se que, associados as tempestades elétricas, costumam estar ventos fortes e águas revoltas.

Fundos de cânions estreitos dificilmente são atingidos por raios, mas deve-se ter muito cuidado com trombas d’água.

Escolha área de acampamento (baseado nas informações acima) com muito cuidado, para não ter que abandonar a barraca durante a noite. Lembre-se que chuva e ventos fortes costumam acompanhar tempestades elétricas, portanto, previna-se contra queda de árvores, barracas levadas pelo vento, áreas inundáveis, hipotermia , alunos perdidos na noite, quedas no escuro, animais peçonhentos, etc. Portanto, se o local de acampamento for bastante adequado, o grupo deve permanecer dentro das barracas, evitando os riscos acima. Contudo, se o grupo estiver acampado em área perigosa, possivelmente será necessário abandonar as barracas, ir a local mais seguro e espalhar as pessoas pelo terreno. Dentro da barraca, todos devem estar com seus corpos totalmente sobre os isolantes térmicos, em posição de segurança e fora de contato com o sobreteto e varetas ou haste central da barraca.

Procure espalhar as pessoas e as barracas tanto quanto possível, para evitar que um raio fira muitas pessoas e diminua o número de socorristas.

O conceito de cone de segurança, difundido há alguns anos, hoje em dia não é mais recomendado (baseado no Nols Accepted Field Practices atual).

Posição durante uma tempestade elétrica: sente-se sobre seu isolante térmico, colete salva-vidas, roupas, ou outro material não condutor de eletricidade e procure ficar o menor, mais baixo e mais compacto possível. Mantenha as partes do seu corpo todas juntas, evitando causar diferença de potencial elétrico entre duas partes afastadas - como os pés afastados, por exemplo. Fique confortável, pois poderá ser preciso permanecer nesta posição por tempo prolongado. Feche os olhos. Não há qualquer registro de pessoas gravemente feridas estando nesta posição de segurança.

TRATAMENTO DE ACIDENTADOS

Prioridade de atendimento – num acidente com outros mecanismos de injúria, geralmente aconselha-se atender preferencialmente pacientes conscientes, pois estes têm maiores chances de sobreviver. Para pessoas atingidas por raios, a lógica se inverte. Geralmente os conscientes e gemendo de dor podem esperar e os inconscientes têm boas possibilidades de recuperação, se atendidos imediatamente. Por este motivo, deve-se atender preferencialmente os inconscientes, para tentar recuperá-los de possíveis paradas respiratórias e cardíacas.

RCP rápido e bem feito tem chances efetivas de recuperar pacientes.

Mantenha monitoramento rigoroso após recuperar o paciente. É normal haver recaídas para estado inconsciente, assim como necessidade de ventilação por horas a fio, devido a novas paradas respiratórias ou respiração muito debilitada. Lembre-se: compressão do tórax para efetuar massagem cardíaca, só deve ser feita na ausência de pulso; ventilação pode ser feita na ausência de respiração ou com respiração debilitada, como auxílio. Em outras palavras, a ventilação é anytime, anywhere, anyplace.

Trate queimaduras causadas por raio como qualquer outra queimadura.

Podem ocorrer danos internos não visíveis externamente no paciente.

O paciente deve ser evacuado mesmo que não tenha perdido a consciência. Há casos de manifestação de problemas neurológicos dias após o acidente. O paciente deve fazer o mínimo esforço possível.

Como pode haver a manifestação de conseqüências de um raio com grande retardo, deve-se monitorar acidentados permanentemente, até que tenham sido evacuados.

DICAS, MITOS, VERDADES

Um raio atinge, sim, duas ou muitas vezes o mesmo lugar.

Distância de um raio: o som propaga-se a 330m/s. Portanto, dividindo-se os segundos contados entre o clarão de um raio e o som de um trovão por três, estima-se sem precisão, a distância do ponto gerador da descarga elétrica, em quilômetros. Mais importante que a distância em si, é o acompanhamento da aproximação ou afastamento da tempestade.

Raios podem ocorrer antes, durante e depois de uma tempestade.

O corpo humano não retém carga após ser atingido por um raio – como pode ocorrer se estiver em contato com um fio elétrico desencapado - podendo ser tocado.

Metais não atraem raios, mas são ótimos eletrocondutores.

Os pneus de um carro não evitam que ele seja atingido por um raio. Em caso de tempestade elétrica, feche as janelas, pois o raio tende a percorrer superfícies externas. Neste caso, tenderá a correr pela lataria (e eventualmente o vidro da janela) e descer ao solo. Com janelas abertas, o raio pode entrar no carro. Não encoste na lataria do carro.

Sola de borracha no calçado não evita que uma pessoa seja atingida por um raio.

 
 
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